A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte I)

Na verdade, eu nunca fui para o Uruguai a pé. Pelo menos, não completamente. Para alguns que contei essa história do início ao fim, agradou-lhes pensar que eu tinha percorrido um grande trecho de terra caminhando, fato pouco provável que entretanto não me desagradaria.

Foi ontem o dia de dezembro em que o Roberto passou lá em casa como uma mola propulsora inventando essa trip. Ir pra Santa Catarina no verão de 2002 nos parecia uma idéia um pouco gasta, então decidimos ir pro Sul, só pra contrariar, digo, variar.

Qualquer idéia meia-boca me faria largar um estágio pelo verão que se apresentava. Juntei a merreca do meu último salário e pedi as contas. Pros meus pais, uma viagem de férias de uma semana. O detalhe é que estagiário, naquela época, não tinha essa regalia.

Saindo de bus, fomos de Porto Alegre pra Quintão, uma praia mais ou menos conhecida antes de encararmos qualquer coisa de que fazíamos uma vaga idéia. Mar, areia, umas lagoas. Dunas, muitas dunas. Numa delas, a gente esticou cada um o saco de dormir, sem barraca – nós nem sequer tínhamos uma. Eu me lembro de mergulhar numa noite ancestral. Eu nunca tinha visto um céu tão estrelado na minha vida. O vento em contato com a areia das dunas fazia um barulho assustador, um mugido de vaca, como a madeira que assovia quando queima.

Lembro de a gente acordar no outro dia, lavar a cara numa lagoazinha, e seguir na caminhada. Meu camarada de viagem ia um pouco à frente, sem nos perdermos de vista. Olhei pra ele subindo uma duna, e com um olhar, apontou: “vou por aqui”. No próximo instante, ele desceu pra trás de uma delas e pronto… não o vi mais. Nos próximos minutos, horas, dias!

O que pensar, o que fazer, solito em Bacopari, com a idéia de que seria bom ir a pé, de carona ou como fosse preciso até o Uruguai, adiante? Voltar? Não me passou pela cabeça.

Uma segunda noite, agora na beira da praia, só o saco de dormir me separando do vento inclemente e da areia. Quem conhece as boas praias do sul do Brasil sabe bem como é convidativa essa combinação à beira-mar.

Ainda tentando topar com o Roberto de alguma forma – alguém naquele semi-deserto devia tê-lo visto, algum sinal ele tinha deixado –, no terceiro dia as coisas começaram a acontecer. Quero dizer, o que fazer diante do daquela faixa imensa de areia e mar? Caminhar, até encontrar alguém.

Peguei a primeira carona do dia. Também a primeira da viagem. Digo… a primeira da vida, chamando no dedão! Um pescador, sua mulher grávida e um filho pequeno, num carango velho corroído pela maresia e movido a metanol, juro! O carro atolou na areia fofa e o motora, o pai de família, que não era má pessoa mas também não estava de muito bom humor, mandou a gente descer e empurrar. Eu, a mulher grávida e o piá de 6 anos.

Mais adiante, uma segunda carona, atrás de um caminhão pra levar marisco. Me levam até a vila do farol de Mostardas, me convidam pra comer peixe no seu barracão de pescadores (dois casais, filhos etc.) e assim me dão a morta do dia: quem tem pouco não tem medo de perder, então compartilha.

Casualmente, o caminhão de gás estava parado no butiquim da vila. Com alguma ajuda da família de pescadores, eu emendei a terceira carona do dia, rumo a Mostardas. O motorista e seu colega acham curioso, muito curioso, eu estar rodando por ali daquele jeito. Ficam admirados, e bem à vontade começam a contar causos. Passamos na frente do cemitério, e eles falam com seriedade e respeito sobre o filho de cada um deles que está ali. Tudo isso numa curta viagem que me leva a um simpático hotelzinho da cidade de Mostardas. Que dia! E que noite, bem dormida numa cama.

6 Comments +

  1. Para mim, você foi ao Uruguai a pé durante 9 dias de caminhada e aportou em uma vila de pescadores do lado de lá do Chuy, onde bebeu biño e hablou español con la gente. Em tempo: discordo da expressão ‘boas praias’ do sul. Boa mesmo, no sul, só de SC pra cima.

    Curtir

    1. Sim, é vero, foram 9 dias de CAMINHADA. A parte das caronas é só pra rechear a história. Mas guentaí que só estamos lá pelo terceiro dia, em breve mais, em prosa e em quadrinhos.

      Discordo da tua discordância: pra quem gosta de praia, uma praia que de mar e areia, já é boa praia. Vai pra uma praia da Inglaterra, com pedra ao invés de areia e e entra na água, depois tu me fala.

      Curtir

  2. Espero que agora tenhamos um relato mais minucioso e completo da história que levou a familia a ficar em polvorosa… com ameaças de até mover a força policial… quem sabe até a Interpol… por estar no estrangeiro… A história vale um romance… com um misto de tragédia… mas, como diria o autor da história… no fim, vai dar tudo certo…

    Curtir

    1. Acho que essa descriçao nao vai ter erro, se for o mesmo: um hotel de um andar só (térreo), com um corredor mega cumprido, quartos ã direita, quartos à esquerda. Banheiro coletivo no meio desse corredor.

      Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s