A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte IV)

[Quarta parte dessa minisérie que deverá ter uns 10 capítulos.]

Como eu estava dizendo antes, eu tive uma visão, uma experiência de cunho religioso. Não, eu não vi nem falei com Deus… Falei com os representantes da firma.

Foi numa beira estrada, saindo do Cassino, enquanto eu comia umas frutas e dava um tempo sob o abrigo de uma parada de bus. Lá longe vinham eles, dois caras um pouco mais velhos do que eu, vestindo camisa branca de mangas curtas, com gravata, calça e sapatos pretos. Imaginem um lugar onde ninguém passa à pé. Acrescentem um sol de trinta e picos.

Que diálogo se passou entre nós?! Os caras me falaram da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, um nome que por si só já dá o que pensar. Eram missionários mórmons.

Não saí dali acreditando em Deus mais ou menos do que já acreditava. Não me converti à IJCSUD (dá trabalho escrever o nome inteiro!). Mas a situação era tão surreal quanto uma cena do filme Via Láctea, do Buñuel. E depois de falarem comigo com seu sotaque norte-americano e entregarem seus panfletos, partiram por uma estrada de chão pedregosa, contentes com a sua missão.

Segui no meu caminho, com a meta de chegar ao Taim naquele dia, o que consegui depois de pagar alguns pecados na estrada, que só era boa pra quem estivesse instalado dentro de qualquer coisa que se movesse sobre 2 ou 4 ou 10 rodas.

No final da tarde, tive uma idéia brilhante: me aprochegar na sede do IBAMA que ficava a alguns quilometros da pequena e simpática Vila do Taim, pra ver se rolava algum lugar pra dormir. Fato que me levou à automaldição de ter que caminhar os 6 quilômetros de volta para a vilinha, depois de ouvir um não.

A noite passada na beira da Lagoa Mirim me fez voltar a ter alguma consideração por mim mesmo. Nem uma leve chuva e um certo medo de que a lagoa avançasse, me encharcando no meio do sono, atrapalhou aquele mergulho na noite do sul do Brasil.

Melhor ainda foi acordar a fazer o primeiro rango com fogo de chão ali mesmo, perto da lagoa. Um miojo de dar inveja aos raros habitantes daquelas bandas. Um deles se aproximou com o filho pequeno e, curioso, puxou conversa. E mais: depois de uma pequena prosa, me convidou a passar na sua casa. Coisa mais simpática, o cidadão!

Foi esse sujeito que encontrei uma hora depois, espraiado no seu quintal com a família, deslumbrado comigo e com as minhas andanças, o protótipo de homem bom e ingênuo do interior.

Já de volta à caminhada, encontramos um vizinho seu andando à cavalo, a quem ele me apresentou. Ali de cima do cavalo, no tempo de uma rua de chão batido, ele me contou o seguinte causo:

Certa feita, um forasteiro que passou por aqui pediu água para um fazendeiro local. O fazendeiro, um tipo grosseiro e avarento, negou-lhe. O viajante se conformou e foi embora. Porém, naquele ano as vacas não deram mais leite e uma seca braba se abateu sobre o lugar. Por conta disso, nunca tratamos mal quem por aqui está de passagem.

Sorte minha que essa era a lenda do lugar.

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2 Comments +

  1. Precisamos de uma lenda dessas aqui pra nós. Hoje em dia as pessoas são mais parecidas com o grande fazendeiro e menos com os homens bons do interior.
    Aguardando as próximas cenas.

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