2961565820_5a03199811_o

Ok, vamos admitir: não somos (tão) racionais como pensamos.

Se tem uma coisa de que nos gabamos – em relação às outras espécies – é a nossa capacidade humana de raciocinar. Nós fazemos listas, planilhas. Nós ponderamos. Nós tomamos decisões lógicas pra agora e pra daqui a anos.

O pleito recente mostra o quanto essa concepção é verdadeira (#ironia). Cada lado vociferando a sua razão…

Querem ver como funciona a razão por trás da propaganda política? No podcast Decode DC (em inglês), a apresentadora trata de desmascarar os códigos por trás da cidade de Washington DC, centro do poder norte-americano. No episódio 2, dos 05:20 em diante, discutiu-se isso (nas minhas palavras, resumido):

Os republicanos se deram conta de uma coisa antes dos democratas: o valor do uso do marketing. Boa parte dos primeiros vão a escolas de negócios, onde uma das matérias é o marketing que, por sua vez, estuda ciências cognitivas, como o cérebro funciona etc. Já os democratas, em geral estudam Direito ou Ciências Políticas, áreas focadas no pensamento racional. De acordo com esta mentalidade clássica, as pessoas agem conforme a razão. Olham pras opções diante de si e fazer uma análise de custo vs. benefício.  “A estratégia de apelar à razão não é tão eficiente quanto a outra”, diz um estudioso do asssunto. Quem coordena – e não é de agora – são os spin doctors, especialistas em transformar uma mensagem em algo a seu favor.

Observando isso e as discussões acaloradas das eleições de 2014, será que descambamos de vez para a não-razão? Será que pensar e argumentar só com a emoção é a nossa sina?

O fato é que maior parte das nossas decisões são baseadas numa área do nosso cérebro que não é consciente (não encontrei a referência, mas lembro de ter lido sobre algo como 85%), e nossa área para “processamento” consciente é bem limitada.

Dan Ariely se especializou nisso, no estudo de como nos comportamos de maneira irracional. Coletou diversos exemplos relacionados ao mundo do consumo, como esse abaixo, sobre a resistência de pagar com dinheiro em oposição a pagar com cartão:

Sebastião Salgado, que já fotografou tudo que é tipo de gente e lugar, diz que a pretensa racionalidade superior do homem é uma ilusão: “Existe uma racionalidade profunda dentro de cada espécie.” E aí ele inclui até árvores, não só os animais.

Me ocorre o seguinte: a racionalidade dos animais, não chamamos de razão, chamamos de instinto; a racionalidade das plantas, chamamos de sabedoria da natureza. Uma vez que nos afastamos muito disso, dessa naturalidade e instinto, será que não estamos sobre-valorizando a nossa razão como forma de compensar? Isto é, “eles tem aquilo, mas nós… nós temos ISSO!”

Sai razão, entra emoção?

Funcionaria, uma nova lógica baseada só em emoções e nenhuma razão? Acho que não. Mas não dá pra esconder que não nos orientamos só e predominantemente pelo 1+1=2. Admitir isso pode nos trazer alguma tranquilidade.

Pra fechar, uma referência a um cara que pensou numa nova lógica: Marshall Rosenberg e a Comunicação não-violenta. Nova lógica? Bom, talvez apenas um resgate de uma forma antiga que perdemos de se conectar consigo e com os outros.

Tomar posse das próprias emoções (e não se deixar levar simplesmente pela dos outros); trazer elas à tona, ao invés de confiar puramente na razão; observar mais, julgar menos; não se ofender mortalmente quando não tem uma vontade atendida… Tudo isso dá bastante trabalho, mas de outra forma, quem sai ganhando? Quem está com a razão?

Publicado originalmente no Medium. (foto: dierkschaefer)

Deixe uma resposta +

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s